quarta-feira, 25 de março de 2015

DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS


Por Rev. Pe. Josemaría Mestre Roc, FSSPX

O Ofício próprio do demónio é tentar, segundo Santo Tomás (Iº, II, 4, 2); por isso, já vimo como combatê-lo, ao estudar a luta contra as tentações. Só nos resta por ver algumas normas de discrição de espíritos, para saber quando é o demônio o que move nossa alma, e quando é Deus, e quando é nossa própria natureza, a fim de poder atuar em consequência, aceitando as boas moções e rechaçando as más.

I. Que é o Discernimento dos Espíritos?
O discernimento dos espíritos é a ciência que nos permite discernir as diferentes moções que obram em nossa alma, seus diferentes princípios, e assinalar quais foram provocadas direta ou indiretamente por Deus, pelo demónio, ou por nossa própria natureza humana.
Por tanto, entendemos aqui por ‘espírito’ a moção interior pela qual nossa alma é incitada a fazer ou omitir uma ação, e o princípio mesmo donde procede esta moção. Facilmente podem reduzir-se a três os espíritos que movem o homem em suas ações:
1. O espírito divino, ao que podemos assimilar o espírito angélico: nos incita sempre ao bem, obrando diretamente sobre nossas almas, o indiretamente servindo-se dos anjos.
2. O espírito diabólico, ao que podemos assimilar o espírito mundano: nos incita sempre ao mal, seja por si mesmo, seja por meio do mundo, que é seu amigo, seu aliado e seu instrumento.
3. O espírito humano, ao que podemos assimilar o espírito carnal, que é uma de suas manifestações mais correntes: nos inclina umas vezes ao bem, conhecido pela razão e apetecido pela vontade, e outras vezes ao mal, arrastado pela própria concupiscência.
4. Estes três espíritos podem interferir-se e mesclar-se às vezes de mil maneiras; sem embargos, contamos, na maioria dos casos, com indícios suficientes para fazer o discernimento com garantias de acerto.

II. Sinais do Espírito de Deus
Os principais efeitos que o espírito de Deus produz na alma são os seguintes:
1. Comunica luz e verdade à alma, porque Deus é Luz (I Jo I, 5) e Verdade (Jo XIV, 6). A alma assim movida é dócil: se deixa ensinar, e aceita com facilidade as instruções e conselhos de seus Superiores e de seu diretor espiritual.
2. Infunde na alma alegria, paz, e confiança, inclusive em meio das maiores provas.
3. Inspira à alma pensamentos humildes.
4. Faz a alma sincera, veraz e simples.
5. Leva a alma a buscar a gloria de Deus e o cumprimento de sua divina vontade em todas suas ações.
6. Empurra a alma à abnegação de si mesmo, à prática de uma caridade mansa, benigna, e desinteressada, e à imitação de Cristo em todas as suas ações.
7. Comunica à alma uma grande liberdade de espírito, quer dizer, a inflama em Deus e a desprende de todas as coisas criadas.
8. As moções divinas se insinuam suavemente na alma em estado de graça, mas atormentam com santos remordimentos às almas em pecado.

III. Sinais do Espírito Diabólico
Como é óbvio, serão diametralmente opostos aos sinais do espírito de Deus:
1. Deixa a alma em trevas e obscuridade, com dúvidas e angústias interiores. A alma se mostra teimosa e obstinada em seu próprio juízo, sem nunca dar o braço a torcer.
2. Infunde na alma tristeza, turbação, desconfiança e desalento.
3. Inspira à alma pensamentos de orgulho, vaidade, etc.
4. Faz a alma desobediente, ou hipócrita e doble; e a obstina em não abrir-se ao diretor espiritual.
5. Leva a alma a obrar por fins torcidos (i.é. por vaidade), ou por próprio capricho.
6. Inspira à alma horror à mortificação e abnegação de si mesmo, impaciência nos trabalhos e sofrimentos; falsa caridade, zelo farisaico, amargo, indiscreto, quer perturbar a paz. A alma vive no esquecimento de Cristo e de sua imitação.
7. Faz que a alma se apegue ao terreno, a seu próprio “eu”.
8. As moções do espírito diabólico entram na alma em estado de graça com violência, como por força, com ruído e estrépito; enquanto que inspiram à alma em pecado uma falsa paz, tranquilidade  e segurança.
9. O espírito diabólico costuma sugerir seus pensamentos na desolação espiritual; sem embargo, se disfarça muitas vezes de anjo de luz e sugere ao princípio boas coisas (tentações baixo aparência de bem), para dissimular por certo tempo suas perversas intenções e fazer cair a alma quando esteja mais desprevenida. Por isso há que proceder com cautela, e vigiar que não comece a desviar-se o que a princípio começou bem. Este desvio se manifestará ordinariamente por algum sinal já indicado.

IV. Sinais do Espírito Humano
A natureza vulnerada pelo pecado se inclina sempre à sua própria comodidade, e no entende nem sabe outra coisa que satisfazer seu próprio egoísmo. Por isso:
1. É amigo do prazer e do regalo, e busca sempre seus gostos, preferências e caprichos.
2. Tem horror instintivo ao sofrimento, à mortificação e à abnegação de si mesma.
3. Busca a alegria, o êxito, as honras e os aplausos.
4. Não quer ouvir falar de humilhações nem de desprezos de si mesmo.

V. Conclusão
Na prática é muitas vezes difícil discernir com segurança se alguma destas moções torcidas provêm do demónio ou do simples impulso de nossa natureza mal inclinada pelo pecado. Mas é sempre realmente fácil discernir as moções da graça das outras duas; basta-nos, pois, poder determinar se uma moção é de Deus, para segui-la, ou se não é de Deus, para combatê-la e reprimi-la.

(Extraído de Cuadernos de La Reja, nº 2, 1998, Catecismo da Vida Interior, II Parte, Cap. 3, tradução por Luiz Mergulhão)


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